Tuesday, April 18, 2006

IGARASSUJARARAÍ, O PRIMEIRO BRASILEIRO

FICÇÃO


Primeiro marco de posse de terra
chantado pelos portugueses no Brasil,
em Touros,hoje na Fortaleza dos Reis Magos,
boca da barra do Potengi,Natal/RN

DE EDUARDO ALEXANDRE GARCIA
Em construção


O PRIMEIRO BRASILEIRO 1

João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes chegou à Terra de Santa Cruz em 17 de agosto de 1501, dia de São Roque, como marujo da esquadra comandada por Gaspar de Lemos. Vinha disposto a ficar naquelas terras, explorá-las, amealhar ouro e pedras preciosas e, se pudesse, voltar rico para a civilização. Era uma manhã clara, de sol forte, ventos a assobiar pelos conveses das três naus fundeadas diante daquele cabo, certamente extremo nordeste daquelas terras cuja posse vieram tomar, a mando do rei de Portugal, Dom Manuel.
Sua intenção, não dissera a ninguém, mantinha-a em segredo, na primeira oportunidade afastar-se-ia da tripulação, desertaria, sendo dado como morto ou perdido em meio àquela floresta sem fim, logo depois das dunas, fartas naquele pedaço de chão. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes estava deslumbrado diante daquele cenário primitivo, belo e misterioso, repleto de pássaros que nunca vira. O mar, límpido e verde, a proporcionar o espetáculo dos golfinhos em brincadeiras intermináveis, feito dança, acompanhando, circulando as embarcações.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes estava na nau comandada por Américo Vespúcio, a quem, mais tarde, foi prestada a honraria de ter seu nome ligado àquele continente, imenso continente, descoberto, anos antes, pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, em 1492.
Os peixes voadores o encantaram. Voavam em cardumes, perseguidos por um peixe comprido, brilhante, branco, de metro e meio, calculava, que mais tarde viera a saber chamar-se camurupim, nome dado pela indiada que sabia existir, mas que não dera ainda sinal de vida.
Os silvícolas existiam, garantira o comandante que, ano antes, participara da frota de Pedro Álvares Cabral quando da confirmação da existência de terras onde supunham as encontrariam. Terras portuguesas, asseguradas pelo Tratado de Tordesilhas, que dividia o mundo desconhecido entre Portugal e Espanha, sob bênçãos do papa. Estavam ali para um primeiro reconhecimento, mapear a área e dar nome aos acidentes geográficos significantes que encontrassem no caminho, dali até Porto Seguro, onde aportara a esquadra de Cabral. Estavam próximos ao Cabo de São Roque, como mandara registrar em livro o comandante, numa enseada de mar tranqüilo, de onde estudavam o litoral. Gaspar de Lemos viera com a incumbência de fazer o chantamento de marcos de posse naquela terra, e ali deixaria, para que soubessem os que porventura se aventurassem por aqueles chãos, aquelas eram terras portuguesas.
Gaspar de Lemos temia os índios, vira-os no ano anterior, e sabia que podiam trazer perigo. Como nenhum deles foi visto, tomou a decisão de naquela mesma tarde providenciar o desembarque do monólito de legítimo mármore de Lisboa, branco fosco, onde podiam ser vistos, em relevo, a Cruz da Ordem de Cristo e as armas do rei de Portugal, cinco escudetos em cruz, mais cinco besantes – pequenos discos lisos, semelhantes a moedas, para chantamento em terras acima da praia.
A guarnição responsável pelo serviço, comandada pelo próprio Américo Vespúcio, recebeu ordens de muitos cuidados, não adentrar o litoral e regressar tão logo surgisse algum silvícola. Estava bem armada e protegida pelos canhões dos navios lusitanos. O navegador indicou o local ideal para o chantamento da peça e logo que feito o trabalho regressou com os mesmos 20 homens que o acompanharam na missão. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, apesar de voluntarioso, permaneceu embarcado.
Logo que chegaram à nau capitânia, recebidos para festejos por Gaspar de Lemos, os portugueses começaram a perceber a presença dos índios. Primeiro, um em correria pelas dunas, saído de detrás de arbustos, abrigando-se atrás de outros. Logo depois, um outro índio fez o mesmo percurso, e outro, e outros mais. Logo, seriam mais de duzentos, trezentos talvez, muitos, a dominar o cimo das dunas amarelas, ostentando presença maciça. Portavam arcos e carregavam lanças já conhecidas do comandante da frota lusitana. Alguns avançavam em direção à praia e depois recuavam, corriam, percebia-se alvoroço entre eles.
Duas horas depois, já quase escurecendo, cinco índios se acercaram do marco, assistidos, de longe, pelos portugueses. Pegavam na pedra, lambiam, tentavam removê-la, mas nada conseguiam: o serviço de chantamento fora muito bem feito e a pedra, montada sobre pedra maior, a servir-lhe de base e encaixe, permanecia no lugar, imóvel, resistindo à pauladas e tentativas de remoção. Em alvoroço, gritando e gesticulando muito, logo dezenas de silvícolas cercavam o indicativo de posse portuguesa sobre terras de Pindorama.
Dali por diante, a indiada não teria mais paz, sabia-o o cacique Potiassu, antevendo dias movimentados na área.
Fazia-se necessária alguma reação, mostrar aos invasores que não haveria hospitalidade.
Os nativos, então, passaram a gesticular como se chamassem os portugueses de volta à praia. Gaspar de Lemos, no entanto, preferiu aguardar o amanhecer de novo dia para a tentativa de aproximação. Afinal, além do pau-brasil, abundante em toda a extensão daquele litoral, os silvícolas poderiam ter riquezas desconhecidas dos europeus. A intenção do comandante era fazer a aproximação. No dia seguinte, levaria oferendas à praia, tentaria fazer amizade com os selvagens.


O PRIMEIRO BRASILEIRO 2

As embarcações portuguesas amanheceram repletas de peixes voadores em seus conveses. Bem próximas às embarcações, duas baleias brincavam nas águas da enseada. No céu azul bem claro, nuvens de pássaros eram vistas de um lado para o outro, pássaros de todas as cores, um encantamento. Em terra, os índios, no cimo das dunas, já os aguardavam pintados de preto. Alguns pareciam dançar. O vento continuava forte, encrespando o verde das águas. Longe da praia, onde repousava o marco, dezenas de guerreiros gesticulavam, acenavam para os embarcados, como se os convidassem para o desembarque.
Gaspar de Lemos chamou seus comandantes de naus ao navio capitânia e contou de sua intenção de ir à praia, com presentes para os nativos. A tripulação, no entanto, mostrou-se temerosa, fazendo ver o risco de vida que a missão representava. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes viu aí sua grande chance de permanecer em terra. Correria o risco de ser morto pela indiada, mas não tinha medo da morte: o sonho de riqueza fazia-o cego ao perigo. Apresentou-se, então, como voluntário para a missão. Como era tripulante da nau comandada por Américo Vespúcio, este fez objeção.
— Melhor mandar degredados.
Como João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes insistia em participar da missão, Gaspar de Lemos, embevecido diante da coragem demonstrada pelo marujo, decerto a servir de exemplo ao restante dos comandados, consentiu finalmente com a ida do mancebo a terra. Mandou retirar dos porões do navio o degredado de maior pena e condenou-o à missão. Se voltasse, seria um homem livre. O degredado, no entanto, recusou-se, preferindo morte por afogamento ou qualquer outra, a ter com aqueles selvagens, quem sabe comedores de carne humana.
O próprio Gaspar de Lemos desceu aos porões da nau. Conversou com os apenados e por fim um deles concordou com a proposta do comandante. Se voltasse, seria um homem livre: acompanharia, mesmo que desarmado, o marujo de 22 anos em sua missão. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes estaria provido do que havia abordo de melhor em armamentos e apetrechos de sobrevivência, comida, munição farta, facas e facões. Era a chance que esperava. Sabia, Portugal mandaria outras esquadras àquela terra, e depois que tivesse em mãos os tesouros que com certeza encontraria, voltaria rico para uma vida confortável em Paris, onde pretendia viver.
Preparado o barco com as oferendas portuguesas, peças de tecido, roupas, chapéus, botas, panelas, espelhos, estatuetas, pentes, uma série de bugigangas, os dois lusitanos rumaram para a praia. Deviam tentar fazer contato com os nativos, não deviam ir longe, adentrar-se ao litoral, e teriam o prazo de cinco dias para a missão. Se não voltassem nesse prazo, a esquadra seguiria viagem. Gaspar de Lemos estava certo de que a missão seria bem sucedida, afinal, quando do aportamento de Cabral na viagem anterior, tinham encontrado índios pacíficos que ficaram satisfeitos com a troca de presentes e até os levaram às suas aldeias, chegando a oferecer suas mulheres à tripulação.
Quando os índios perceberam o pequeno barco dirigindo-se para a praia, voltaram ao alvoroço. Muitos correram, descendo as dunas, empunhando arcos e apontando suas flexas em direção aos portugueses. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, nessa hora, tremeu. Viu algumas flechas caírem bem próximas à embarcação que os conduzia e chegou a remar em sentido contrário ao que se propusera. Longe do alcance das armas indígenas, deixou-se a contemplar aquele inusitado cenário. Das dunas, desceu um guerreiro forte, mais alto que os demais, com um arranjo de penas na cabeça, e comandou a volta da indiada para as dunas, como se a demonstrar querer a visita.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes tomou coragem e experimentou rumar para a praia. Viu quando os índios iniciaram imensa gritaria para depois dominar o silêncio, imposto pelo comando daquele que deveria ser o chefe de todos eles. Aos poucos, foi se aproximando da praia, enquanto a indiada, no alto das dunas, aguardava o desembarque em silêncio. Por um bom tempo, o mancebo português vacilou. Os índios estavam distantes, mas aquilo poderia ser uma cilada. Por fim, mais certo da reação satisfatória dos nativos, desembarcou.
Próximo ao marco chantado na véspera, sobre uma grande esteira de fibras vegetais, colocou as oferendas do seu comandante, dispondo-as cuidadosamente. Enquanto ele e o degredado companheiro de missão preparavam o local para as possíveis trocas, um dos índios, gritando, parecendo possesso, disparou em direção à praia com uma lança na mão. O índio que parecia o chefe tomou seu arco, armou-o com uma flecha e disparou contra o insubordinado, atingindo-o na coxa direita, por trás, fazendo-o cair um pouco adiante, tingindo de vermelho aquelas areias amarelo-pálidas do Novo Mundo.
Duas mulheres nativas, obedecendo ao comando do chefe indígena, vieram recolher o homem caído, acalmando os nervos dos portugueses de terra. De onde estavam, fundeados na enseada, os ocupantes da frota portuguesa nada perceberam, impedidos que estavam pela vegetação que aqui e ali coloria de verde as dunas da praia que viria a ser conhecida, séculos depois, como Praia do Marco. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, a mão tremendo, já empunhava a garrucha de dois canos, pronto para o enfrentamento. Aliviado, continuou na tarefa das oferendas e, ao terminá-la, afastou-se duzentos metros do local, cuidando de levar consigo o barco.


O PRIMEIRO BRASILEIRO 3

Das dunas, os índios observaram em silêncio os dois homens se afastarem. Cercado de três guerreiros e cinco mulheres, o chefe desceu as areias e encaminhou-se para o lugar onde estavam depositadas as oferendas portuguesas. Enquanto as mulheres se divertiam com o que viam e pegavam, os guerreiros, com arcos em posição de ataque, vigiavam os visitantes. O chefe fez sinal para o alto da duna e de lá desceram mais mulheres para levar os presentes. Deixaram no lugar só a esteira e subiram, todos, ao topo da duna, perdendo-se de vista, por um bom tempo, na floresta.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes julgou ser aquela uma atitude amistosa: os silvícolas receberam os presentes e o chefe até os havia salvo de uma tentativa de morte. À tarde, os índios voltaram a ocupar o topo da duna. Mas não desceram à praia. Como a ordem do comandante era a de que só voltassem após o contato ou em caso de perigo de vida, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes resolveu pernoitar ali mesmo na praia. Pediu ao degredado que o ajudasse a trazer o barco para terra, e fizeram uma fogueira que os protegeria contra animais e o frio da noite. Enquanto um dormia, o outro vigiava, combinou com o degredado a quem coube o primeiro repouso.
Tão logo este pegou no sono, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, tudo levando - menos o barco, afastou-se do local, devagar, silenciosamente, beirando as águas que chegavam, mansas, à praia escura, a lua encoberta por nuvens pesadas a anunciar chuva.
Duzentos metros adiante, ele resolveu adentrar a mata. Sabia que os índios estariam vigiando, mas a escuridão seria amiga naquela hora. Encobriu seus apetrechos com folhas secas, subiu numa árvore, sentou em um de seus troncos e a ele amarrou-se. Os índios viram-no afastar-se da fogueira, mas nada fizeram, certos de que logo voltaria. E assim João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes perdeu-se da vista dos Potiguares.
O degredado, em seu sono pesado, sonhos de liberdade próxima, não se apercebeu, três horas depois, quando os índios dele acercaram-se e, com uma só flechada no coração, deram cabo de sua vida. Das embarcações, nada se via, a não ser o brilho da fogueira queimando na praia, denunciando a presença portuguesa em terras de Santa Cruz. Mais próximo, o medo a afugentar-lhe o sono, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes a tudo assistiu imóvel, preso ao tronco que ali o manteria seguro caso dormisse.
Os índios carregaram o cadáver do degredado duna acima, levando, também, o barco que ficara na praia, longe das águas, a salvo da subida da maré. A indiada, intrigada com o sumiço do outro visitante, recebeu ordens do chefe para caçá-lo naquela mesma noite. Queria-o vivo, pois poderia servir de troca caso algum dos seus caísse prisioneiro daqueles homens estranhos, montados em canoas gigantes. Mas foi em vão a busca da indiada. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes havia se escondido onde os nativos, pelo menos naquela noite, não poderiam percebê-lo. O desaparecimento intrigou o chefe indígena, que irritou-se ao desconforto de noite sem sono.
Aos primeiros raios de sol da manhã, o português se desamarrou da árvore e a desceu cauteloso, os ouvidos à espreita de qualquer ruído. Ele dormira em frondoso cajueiro, àquela época sem nenhum fruto, mas apreciou sua beleza e reparou em suas folhas largas, cheirosas, um cheiro estranho que jamais experimentara. Ficaria por ali. Queria ter a certeza da partida da esquadra, dali a quatro dias, prazo combinado com o comandante Gaspar de Lemos. Teria de se acautelar contra os índios e perigos da floresta, seus animais desconhecidos, os insetos peçonhentos, as cobras. Acordou com o rosto todo picado por insetos, muriçocas e maruins que o infernizaram naquela noite. O resto do corpo, bem vestido em panos grossos, botas que lhe encobriam pés e pernas, nada padecera, a não ser o incômodo da posição, coisa de menor importância diante de problemas maiores.
A indiada amanheceu na praia, no local onde ainda permanecia, presa por pedras, a esteira deixada com as oferendas. O corpo do degredado morto servira de alimentação àqueles índios canibais, fora churrascado naquela mesma noite, numa grande fogueira, e devorado em pouco tempo, por muitos dos guerreiros da tribo. Potiassu, o chefe, comera o primeiro pedaço, certo de que assim fazendo, toda ciência daquele homem transferir-se-ia para si, como para todos que também o comessem.
Das embarcações fundeadas, os homens estranhavam o sumiço dos portugueses. A fogueira ainda queimava na beira-mar, mas sinal algum havia ali dos homens pernoitados. Nem do barco. Gaspar de Lemos julgou-os terem sido apreendidos pelos silvícolas, que já estavam às dezenas em derredor do marco, trazendo oferendas e a colocá-las na mesma esteira usada pelos enviados: frutos, animais abatidos, cocares, redes, ornamentos de penas coloridas, tacapes, arcos e flechas. O comandante estranhava aquela situação. Acreditava na captura dos seus homens pelos índios, mas julgava-os vivos. Esperaria os acontecimentos.


O PRIMEIRO BRASILEIRO 4

Aos poucos, os índios voltaram ao topo das dunas, até que nenhum mais foi visto na praia. Eram centenas. Um número bem maior do que o do dia anterior. A maioria sentada ou de cócoras, como se esperassem que os visitantes viessem buscar suas oferendas. Gaspar de Lemos, no entanto, precaveu-se. Nenhum passo seria dado até que algum sinal dos portugueses em terra surgisse. À sombra do cajueiro em que dormira, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes cavou um buraco de um metro de profundidade, dois de extensão e meio metro de largura, e fez, em dimensões um pouco maiores, um tampo de varas e folhas. Ali ficaria entrincheirado, observando os movimentos da orla marítima.
No meio da tarde, um grupo de mulheres índias desceu a duna com mais oferendas, depositaram-nas sobre a esteira e iniciaram uma dança estranha, de roda, com rodopios sobre o próprio corpo, e gestos como se a convidar os visitantes à terra.
Na nau capitânia, os comandantes confabulavam. Não atenderiam àquele convite. Enquanto não soubessem o paradeiro dos homens desembarcados, não responderiam aos silvícolas. Em terra, quando ultimava o revestimento de sua trincheira com varas, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes foi surpreendido por um dos índios que o procuravam.
Antes que o silvícola corresse a denunciá-lo aos demais, o mancebo disparou sua garrucha contra ele, matando-o. O estampido despertou a curiosidade de outros selvagens nas imediações, que, assustados, foram dar a notícia ao chefe Potiassu. O português, vendo o perigo iminente, jogou seus apetrechos na trincheira, foi até o corpo do índio abatido, arrastou-o até o buraco e empurrou-o para o seu interior. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes tremendo, cuidou de apagar os vestígios de sangue deixados sobre as folhas pelo silvícola. Colheu-as do chão e levou-as consigo para dentro do esconderijo subterrâneo, puxou o tampão que preparara para encobri-lo e deixou-se ficar ali em silêncio, dentro da terra, observando o movimento através de uma das pequenas fendas, preparadas para servirem à vigia.
Um grupo de índios logo estava em volta do local, vasculhando, mas de nada se aperceberam, nem deram pela falta do companheiro morto. Logo esqueceram aquele barulho estranho, jamais antes por eles escutado. Voltaram às suas posições na duna, despreocupados em caçar o fugitivo, enquanto outro grupo de mulheres voltava ao local do marco, acenando mais uma vez para as naves ancoradas na enseada. Voltaram uma vez mais antes do entardecer, e, de sua trincheira, tudo João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes observava.
As tentativas de aproximação dos índios com os brancos, naquele dia, foram vãs. Antes do anoitecer, retornaram às suas aldeias e não mais se preocuparam com o português em terra, até que deram pela falta do guerreiro morto. Poderia ter ficado na mata ou estava prisioneiro do Homem da Canoa Grande, como estava sendo chamado João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes pelos silvícolas. Potiassu destacou um grupo para procurá-lo, outro para fazer a vigília na praia, próxima ao marco, e dormiu intranqüilo e cansado.
As buscas ao índio desaparecido levaram os guerreiros ao local onde escutaram o ruído estranho. Vasculharam o lugar e lá se detiveram por mais de duas horas. Na sua trincheira, tendo ao lado o cadáver do silvícola morto, Homem da Canoa Grande tremia. Quando os movimentos da indiada cessaram, finalmente João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes conseguiu dormir, apesar da imensa fome que sentia. Dormiu ao lado do morto, naquele buraco por onde passeavam formigões pretos e formigas menores, vermelhas, que começavam a devorar o corpo frio e rígido do morto.
Quando João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes acordou, dia seguinte, o sol já estava alto e o movimento na praia já era intenso.
Dezenas de índios dançavam em volta da pedra chantada. Outros, nos morros ou nas dunas, faziam fogueiras, como se a anunciar suas posições ao chefe. Potiassu estava intrigado com o desaparecimento de seu guerreiro. Reforçara o grupo de busca e recomendara mais uma vez o aprisionamento do fugitivo. Queria-o vivo. Morto, só se colocasse em risco a vida de algum dos seus. Nos navios, a curiosidade aumentava entre os membros da tripulação. Por todo o horizonte de terra, viam-se rolos de fumaça subindo os céus.
Gaspar de Lemos, por volta do meio dia, ordenou que três barcos fossem lançados ao mar. Não iriam à terra, ficariam próximos às embarcações, apenas para dar mostras aos nativos de que estavam percebendo a movimentação que faziam. Em sua cabine de comando, o português chefe da tripulação discutia com Américo Vespúcio o que fazer. Esperariam os cinco dias combinados e só então mandariam seus homens à praia, bem armados e em grande número, as canhoneiras apontadas para o topo das dunas.
Aproveitando a curiosidade dos nativos diante dos barcos no mar, ameaçando rumar à praia, Homem da Canoa Grande saiu de sua trincheira, cavou, às pressas, um buraco raso, e enterrou o corpo do índio morto, tendo o cuidado de espalhar folhas secas no lugar remexido. Água, ele tinha para mais alguns dias, mas nada tinha para comer. Se tivesse armas silenciosas como as dos índios, decerto se arriscaria à caça, mas se contentou com alguns frutos amarelos, pequeninos, que vira índios comendo no dia anterior, ali perto do seu esconderijo. Experimentou o sabor da fruta e gostou. Coletou uma boa quantidade e voltou para seu abrigo, onde comeu-os com voracidade.
Na praia, os índios renovaram as frutas da esteira, assim como os animais abatidos. Esperavam a vinda dos visitantes para qualquer momento. Desde que os barcos foram lançados ao mar, mudaram de tática, deixando na praia apenas mulheres. Nas idas e vindas dos barcos, os portugueses chegavam cada vez mais próximos da arrebentação. Mas não ousavam pegar os presentes. Como não viam os dois tripulantes idos à terra já por três dias, parte da marujada começava a mostrar cansaço com a situação e sugeria ir-se embora dali, de vez. O comandante, contudo, manteria a promessa de esperar por cinco dias.
No quarto dia de espera, Gaspar de Lemos, atendendo sugestão de Américo Vespúcio, resolveu ir ter com os indígenas. Preparou barcos suficientes para cinqüenta dos seus homens, todos bem armados, levantou âncora de uma das naves fundeadas, aproximando-a mais do litoral, em posição de tiro, e comandou ele mesmo o desembarque. Ao perceber a movimentação dos visitantes indesejados, o cacique Potiassu ordenou que todos saíssem da praia e se preparassem para o ataque. Quando os portugueses chegaram próximos a terra, a indiada partiu em correria, descendo as dunas disparando uma chuva de flechas contra os invasores.
Os portugueses jamais tinham visto algo semelhante e bateram em fuga desesperada, sem esboçar reação de fogo, de forma atabalhoada e perigosa, mas logo resolvida quando as canhoneiras da nave mais próxima dispararam, assustando a indiada que desapareceu na mata para não mais voltar nesse dia. Em seu refúgio subterrâneo, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes a tudo assistiu, e mais uma vez tremeu ao ver o estardalhaço que os índios, em fúria e aos gritos, fizeram.
Humilhado, Gaspar de Lemos adormeceu naquele dia pensando em como resolver a situação no outro dia, o quinto e último da espera.


O PRIMEIRO BRASILEIRO 5

Logo ao amanhecer, vendo as mulheres de volta ao marco, o comandante da esquadra resolveu mandar um degredado à praia.
Se voltasse, como prometera ao outro, ganharia a liberdade. A reação adversa dos índios poderia ter acontecido em razão dos muitos homens que tentara desembarcar. Experimentaria. Se não desse certo, rumaria para o sul no dia seguinte, dando nome aos acidentes geográficos, realizando anotações cartográficas, chantando pedras de mármore de Lisboa naquelas terras.
O escolhido para o desembarque partiu decidido. Estava condenado a degredo de vinte anos em terras africanas e nada tinha a temer diante da situação. Preferia mesmo morrer a continuar com aquela vida, humilhado, maltratado, sofrendo horrores diários nos porões abafados das embarcações lusas, onde muitos já haviam sucumbido. Pelo menos, tinha a possibilidade de comutação da pena. Se voltasse, seria livre novamente e poderia voltar à família para cuidar dos filhos deixados em Portugal.
O degredado foi se chegando à praia em remadas decididas e velozes. Queria acabar com aquela expectativa. As índias foram buscá-lo na arrebentação, conduzindo seu barco à terra. O homem, sempre cercado pelas mulheres, dirigiu-se à esteira de oferendas e começou a analisá-las. As mulheres índias, curiosas, tocavam seu corpo, puxavam seus cabelos, arrancavam botões de sua roupa. No topo da duna, a indiada guerreira observava. Ele tinha por missão buscar um contato com o chefe da tribo e por isso demorou-se no lugar, enquanto as mulheres faziam festa, dançavam em seu derredor.
O pajé da tribo, carregado de maus presságios e já cansado da situação, desceu a duna, parecendo, para os que estavam distantes, nas embarcações, tratar-se de uma mulher que trazia consigo, na mão direita, um pedaço de pau grosso, parecendo um porrete. Enquanto as índias dançavam em torno do português, o pajé, aproveitando que o degradado estava de costas, com o pau, desferiu-lhe violenta pancada na cabeça, fazendo-o desfalecer. Logo a seguir, as mulheres tomaram seu corpo e, em meio a grande gritaria, levaram-no para o topo da duna, onde o cacique Potiassu se encontrava em companhia dos demais guerreiros.
De longe, os portugueses viram o chefe da tribo a gesticular diante daquele corpo estendido na areia fina, enquanto a indiada partia para a mata trazendo grande quantidade de madeira. Os silvícolas amarraram o degredado português ainda vivo em um tronco fincado à terra, fizeram uma grande fogueira a sua volta e atearam fogo. Durante um bom tempo, aquela imagem pavorosa ficou na retina dos embarcados, provocando mau estar e revolta. O degredado teve depois seus membros decepados e levados para a beira da praia, onde foram devorados pelos índios em gritarias.
Nas embarcações, a marujada revoltada queria vingar aquela morte horrenda, mas Gaspar de Lemos se antepôs.
De nada adiantaria aquele gesto. Seria apenas mais derramamento de sangue, provavelmente de ambos os lados. Ele não queria perder marujos. Tinha uma difícil missão pela frente e queria cumpri-la à risca. Com certeza, os homens desembarcados cinco dias antes tiveram o mesmo fim daquele coitado, teriam servido de alimentação àquela gente bárbara, comedora de carne humana, canibal.


O PRIMEIRO BRASILEIRO 6

Na manhã seguinte, as três naus portuguesas levantaram âncoras e partiram rumo sul, deixando em desassossego aquela gente primitiva.
Na memória dos embarcados, a cena degradante da comilança à beira-mar, voraz, terrivelmente bárbara. Os índios, com aquilo, mostraram aos navegantes lusitanos que defenderiam seu chão, não se entregariam sem luta. Mas no coração de cada um deles, saltava a certeza de que uma era de paz estava finda. Nunca mais ficariam livres daqueles homens pálidos, saídos do mar em canoas gigantescas.
O cacique Potiassu ordenou a três grupos guerreiros que seguissem as canoas grandes até onde as perdessem de vista. Seus ocupantes poderiam aportar em outra praia e voltar por terra para surpreendê-los. Queria que erguessem acampamento em pontos estratégicos do litoral, até bem perto de terras tapuias, onde deveriam permanecer até que a segunda lua grande iluminasse os céus escuros da noite de sua aldeia. Qualquer sinal de que estivessem de volta, imediatamente um índio corredor deveria trazer a notícia. Ao fim do prazo, outro grupo iria substitui-los na vigília. Cuidou de ordenar também a outros dois grupos que rumassem para o norte, imbuídos de mesma preocupação, já que o inimigo podia sumir no horizonte e surpreendê-los fazendo a volta.
Quanto ao homem da canoa grande que ficara em terra, não deveriam molestá-lo. Queria que descobrissem o seu paradeiro e passassem a observá-lo em suas atitudes. Aprender com ele talvez fosse valioso para a segurança de todos. Por isso, destacou dois grupos para procurá-lo, um rumo sul, outro rumo norte. Homem da Canoa Grande não seria louco de adentrar a mata, sabia. Se ousasse, com certeza seria devorado por alguma onça faminta, das muitas que rondavam aquelas cercanias.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes tinha 22 anos e fora bom aluno de escola naval. Quando as notícias da descoberta das Índias, trazidas por Cristóvão Colombo, anos antes, correram mundo e depois foram confirmadas como um continente desconhecido, os olhos dos adolescentes voltaram-se para os encantamentos desse Novo Mundo, e João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes não fez diferente. Seria marinheiro. Iria ver de perto essas terras tão famosas, faladas de boca em boca, talvez a Atlântida, assunto diário de todas as conversas das cidades européias. Quando do embarque, dois meses antes, já sabia tratar-se das Índias Ocidentais, um continente desconhecido, misterioso, onde não havia cidades, só aldeias de silvícolas, seres primitivos, de cultura rudimentar.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, ainda fascinado pela beleza das praias, tomado de uma curiosidade que parecia fazê-lo em perplexidade, olhava fixo aquele marco de mármore branco, brasões lusitanos a conferir ao Reino de Portugal a posse daquelas terras, a areia fininha, empurrada pelo vento, batendo-lhe nas pernas, nenhuma saudade dos tempos de civilização. Aquele, sim, era um mundo novo, e era ali que ficaria para explorá-lo, conhecê-lo, vasculhar os seus mistérios, viver verdadeira aventura.
Ainda escondido em sua trincheira, ele acompanhou a retirada da esquadra. Logo que anoiteceu, pegou seus apetrechos, roupas, armas e desapareceu na praia, protegido pela escuridão. Aprendera as regras de sobrevivência dos náufragos e saberia onde e como encontrar comida, enfrentar os perigos da noite à beira-mar e também na floresta. Em sua caminhada, sorria satisfeito, certo de que um dia voltaria às terras de Portugal, rico e famoso, pois que seria o primeiro habitante europeu daquele mundo novo.
Voltaria e teria uma vida para contar, uma história que deixaria fascinada toda a gente da Europa.


O PRIMEIRO BRASILEIRO 7

Os índios Potiguares espreitavam as caravelas portuguesas desde que elas se apresentaram na enseada. Nenhum movimento daqueles seres estranhos, parecidos vir de outro mundo, passou despercebido aos olhos dos comedores de camarão, exceto aos do Homem da Canoa Grande, desaparecido na noite.
Quanto a ele, melhor observá-lo, evitando envolvimento. Aquilo poderia ser perigoso, ensinava a sabedoria e a prudência do velho chefe, que há muitas luas, já não se recordava quantas, havia visto algumas embarcações como aquelas cruzarem horizontes de suas praias.
Aquelas canoas estranhas pareciam trazer maus presságios. Potiassu parecia até antever o conflito, e, por isso, bem antes daqueles acontecimentos, convocou seu povo, todos ao centro da aldeia, a lua cheia a iluminá-los, a anunciar o perigo: as naves passaram ao largo, bonitas, misteriosas, iluminadas pelo luar, mas poderiam trazer perigo. Seus ocupantes, com certeza, não eram como eles. Os problemas viriam. Mais dia, menos dia. E naquela semana seus presságios se confirmaram: em tudo, aqueles seres eram diferentes dos seus, nas embarcações, nas vestes, nos armamentos que cuspiam fogo e grandes bolas de ferro.
- O homem que não voltou à canoa grande, deixem-no em paz, sob vigia permanente. Devemos saber a que veio, disse-o no seu idioma, o Tupi, e seguiu para a praia onde ficou a examinar a pedra deixada pelos homens das grandes canoas, intrigado com aqueles símbolos gravados em relevo.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes agora já não tinha o enorme nome: era Homem da Canoa Grande. Ele caminhou despreocupado pelas praias, certo de que a escuridão o protegeria. Havia visto as caravelas sumirem no horizonte, pequeninas, e continuou sua caminhada também com destino sul. De longe, escondidos pela vegetação, os nativos já o acompanhavam silenciosamente, curiosos, sem mais temer aquele homem sozinho.
Homem da Canoa Grande dormiu, naquela noite, em grutas formadas por arrecifes à beira-mar, e só acordou pelas 8:30h da manhã bem quente do dia seguinte, quando vislumbrou com mais sossego a imensidão daquelas águas verdes, serenas, bem límpidas e mornas. Ele tirou os apetrechos do corpo, largou as botas sobre os arrecifes e correu para o mar. Queria experimentá-lo, senti-lo, saber o gosto do mergulho naquelas águas. Deixou-se ficar despreocupado por bom tempo. Pensava sobre a vida passada, devaneava, como se esquecido de sua nova realidade: só, naquele mundo imenso, desconhecido.
Já não olhava a paisagem, olhava para dentro de si e lembrava o passado, a pobreza que o obrigara à infância de tantas privações na cidade do Porto. O trinado de três parelhas de periquitos verdadeiros quebrou o silêncio da manhã. Homem da Canoa Grande recordou que estava na Terra dos Papagaios, acompanhou o vôo alto das aves rumo ao interior da terra e voltou-se para aquela que seria a sua paisagem pelo resto da vida. Iria construir cabana e começaria, aos poucos, a investigar o lugar. Voltou aos arrecifes, pegou suas coisas, dependurou as botas no pescoço e continuou caminhada. Precisava encontrar lugar onde tivesse água doce para ali estabelecer-se, depois caçar, pescar, conhecer frutos comestíveis, as raízes, viver sua solidão, sua aventura, caçar tesouros.
Caminhou por duas horas, havendo visto córregos a desaguar no Atlântico, lagoas próximas às praias, mas fixou-se num ponto central de uma grande enseada onde um rio de águas cristalinas chegava ao mar em boa corrente de desembocadura, de cinco, seis metros de largura. Muita água. Ali ficaria, à margem direita, quinze metros além da praia, cinco metros da margem do rio, em terreno um pouco elevado.
A vegetação se fazia menos rala, mais graúda mesmo próxima ao litoral arenoso, aqui e ali aparecendo em maior concentração, quase como na mata além do litoral, porém não ousou experimentar frutos desconhecidos, só aquele amarelinho, doce, que depois viria a saber chamar-se cambuí. Melhor seria aprender com as aves e animais. Deitou à sombra de um cajueiro e adormeceu, despreocupado, feliz com sua atitude, maravilhado em estar naquelas terras.
Os guerreiros do cacique Potiassu continuavam a observar o visitante. Nenhum passo do Homem da Canoa Grande passava agora despercebido dos Potiguares, índios comedores de camarão, a habitar grande parte daquela costa nordeste. Noticiado, o próprio Potiassu ia sempre a frente da indiada, trabalho melindroso, correrias e rastejamento por dunas, vencendo espaços em mata virgem, cheia de galhos, cipós, muitos de consistência difícil de ser vencida.
- Será aqui a minha primeira morada, disse Homem da Canoa Grande para si mesmo, enquanto estudava o terreno em volta, certificando-se da existência de árvores com troncos apropriados a construção do seu primeiro lar. Cuidou de limpar o chão que dali por diante seria seu, pelo menos enquanto quisesse, pensava, sem aperceber-se de que os índios o espiavam, cabendo a eles o destino do pequeno homem da canoa grande, ali, tão só!


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O fascinado lusitano, logo que começou a limpar a área que demarcara para sua morada, sentiu fome. Viu que era necessário ir à luta, buscar alimentação. Decidiu pela pesca no rio. Acompanhou a margem arborizada cem metros adentro, onde deparou-se com uma curva mais sinuosa que acumulava águas mais largas, mais rasas, onde os peixes, de bom tamanho, podiam ser facilmente capturados a pauladas. Homem da Canoa Grande não sabia, ali estava começando sua vida de índio. Igual a daqueles que o espreitavam curiosos.
Cinco peixes corpulentos e pronto, sua comida do dia estava resolvida, e podia ainda ser complementada com fruta que passarinho comesse. As técnicas de obtenção de fogo eram por ele conhecidas, e logo estava pronta sua primeira refeição em terras que viriam a ser brasileiras. O peixe era de boa aparência, até parecia com espécies do continente europeu, mas Homem da Canoa Grande sabia dos perigos que o rondavam. Apesar da fome imensa, convinha comer devagar, só um pouco. Depois, um tanto mais, sentindo, com cuidado, o efeito da comida sobre o corpo. Nem tudo que parecesse sadio, deixaria de ser experimentado com prudência. Há vegetais venenosos, carnes venenosas. Cuidado era preciso. Acautelava-se, falando consigo mesmo.
Depois de ir ao fogo de lenha seca, Homem da Canoa Grande tomou um dos três peixes que havia escamado e tirado as vísceras, colocou-os sobre um prato de liga metálica que trouxera, tomou o garfo, a faca, e começou a buscar o filé do costado do piau gordo, bem pesado, adulto, com certeza. Delícia de carne, podia comê-los de uma só vez e nada faria mal. Mas fez como recomendava a prudência, enquanto limpava os troncos que serviriam à sustentação da cabana.
Trabalhou durante todo o resto do dia e quando o céu começou a avermelhar-se, espetáculo que encantava os seus olhos postos sobre aquele mar, Homem da Canoa Grande parou, deixou-se ficar a contemplar o anoitecer, absorto, e chorou. Nem ele mesmo sabia explicar aquela loucura: ficar sozinho numa terra como aquela, primitiva, inesperada, cheia de perigos. Sim, com certeza, estava em perigo, sabia. Aqueles silvícolas referidos na carta de Caminha e confirmados pelo comandante Gaspar de Lemos existiam, ainda estavam em sua memória, comendo carnes humanas sem nenhum pudor, e não eram nada dóceis como dizia o primeiro texto sobre a terra.
A armação de sua cabana estava quase pronta. Na manhã seguinte faria os enchimentos de gravetos e os entrelaçaria com galhos de folhas grandes. Realimentou a fogueira antes que a escuridão chegasse e preparou os peixes que sobraram ao som da cantoria dos pássaros que disputavam espaço nas árvores da mata, o medo chegando, o guincho dos animais desconhecidos ecoando nas profundezas daquelas terras mais atrás, onde terminavam as dunas. Agora, ele sentia medo. Não medo da morte, que ele não sentia, mas medo da noite desconhecida, do inesperado.
Homem da Canoa Grande ainda não dormiu tranqüilo naquela noite, apesar de todo o cansaço da labuta do dia. Os guinchos vindo da escuridão o espantavam. As luzes, a piscar na mata, numa dança intrigante de vaga-lumes, causavam-lhe sono, mas os vôos baixos e espalhafatosos de corujas causavam-lhe sustos, e ele não se deixava adormecer. Lembrava os formigões pretos a caminhar naquelas areias, temia aranhas, cobras, escorpiões. Tudo ali era desconhecido. Que animais por ali rondavam, Homem da Canoa Grande não sabia, como nada sabia sobre insetos, vegetação, clima, nada. Nada ele sabia sobre aquelas terras.
Quando, à sua frente, sobre o oceano, os primeiros raios de sol da manhã iluminaram o céu vermelho, Homem da Canoa Grande rendeu-se ao sono. O dia, afinal, era mais amigo naquela ocasião, mais seguro, e o protegeria no descuido do adormecimento. Acordou com grãos de areia batendo-lhe no rosto. Era um certo tipo de caranguejo daquelas praias, a maria-farinha, mimetizada com a areia, a cavar um buraco para proteger-se da subida da maré. Levantou de um pulo, assustado, e matou o bicho com um facão comprido, de boa lâmina, peça cuidadosamente trabalhada. Um esmero.
O dia claro, o céu azul, de um azul claro, brilhante, aquela brisa, o ar marinho, um cheiro forte de iodo vindo dos sargaços à beira-mar, aquilo era muito gostoso para o corpo e para o espírito de Homem da Canoa Grande. Ele acordara disposto, apesar das poucas horas de repouso, quantas, nem ele sabia, e correu à mata para providenciar o enchimento dos lados e da cobertura de sua cabana.
Voltou à curva do rio onde pescara no dia anterior, e encontrou terra barrenta, que poderia dar mais proteção ao enchimento lateral de sua casa. Precisaria de algo para transportá-la. Mas isso seria serviço para um outro dia. Primeiro, preocupava-o o essencial. Olhando a vegetação em redor, Homem da Canoa Grande percebeu um bando de sagüis num cajueiro, comendo a resina da árvore, fazendo festa. "Se os macaquinhos comem, posso comer", pensou, e dirigiu-se para a árvore onde estavam os pequenos primatas.
Após a debandada do grupo símio, tomou um pouco daquela resina e sentiu-lhe o cheiro doce a penetrar-lhe as narinas, mas não aprovou seu gosto. Como os símios permaneceram por perto, viu-os a comer uma fruta pequena, de uma árvore frondosa. Aproximou-se, colheu uma delas, tomou uma faca pequena e a cortou na metade. Sentiu o cheiro desconhecido, o sumo pegajoso e lambeu, cuidadoso, aquela polpa branca, sentindo um prazer gustativo jamais experimentado. Lambeu bem devagar, sentindo suas própria reações. Colheu outros frutos como aquele e voltou à cabana. Sim, poderia comê-los. Os lábios pegajosos deixados pelo sumo da fruta causavam um certo desconforto, mas aquilo era o de menos. Viria a saber depois, tratava-se da maçaranduba, farta naquelas matas e assim chamada pelos nativos.


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Enquanto trabalhava na cabana, montando-a com cuidado, Homem da Canoa Grande observava seu derredor, os pássaros marinhos e silvestres, os animais que apareciam arredios, correndo pelas dunas. Olhava o mar e sentia-se pequeno diante da imensidão despovoada. Nada que pudesse dar sinal de vida humana, o que o intrigava. Nada, porém, que o assustasse, pelo menos até ali, à exceção dos silvícolas. Ele estava feliz, muito feliz, apesar de apreensivo, é verdade, mas certo de que logo dominaria aquelas terras, conheceria os seus segredos, a fauna, a flora, sua geografia. Viveria em paz consigo mesmo na solidão daquelas terras, e, se pudesse, faria amizade com seus habitantes.
No seu sexto dia em terras de Pindorama, Homem da Canoa Grande dormiu em sua cabana, ainda com o teto inacabado, mas já a protegê-lo contra a chuva, se viesse, pelo menos em um dos seus lados. Homem da Canoa Grande fez blocos de feixes de varetas de metro e meio, amarradas com os cipós encontrados com fartura na mata, e folhas maiores, de cajueiro. Aqueles blocos de madeira e folhas decerto o protegeria do sol e das águas que viessem do céu, proporcionaria mais conforto e segurança a sua estada naquelas terras desconhecidas, cheias de mistério e encantamento.
Nesse dia, além das maçarandubas, comeu peixe novamente, capturando-os com a mesma técnica do dia anterior, apesar de portar anzóis e linha de pesca. Estava interessado na caça de aves e animais, na pesca marinha, mas a preocupação com a cabana era a prioridade do momento. Primeiro, o abrigo, o lar, solitário lar, para depois explorar aquele curioso mundo, como difundido na Europa.
O cacique Potiassu junto a duas dezenas de guerreiros bem armados de arcos longos e flechas de pontas mortais cercavam a área do homem da canoa grande. A curiosidade que aquele novo habitante proporcionava era imensa para os silvícolas, ainda estarrecidos com a aparição daquelas naus gigantescas trazendo um povo para si desconhecido, com vestes diferentes, proteções de cabeça bem diferentes dos seus cocares de penas coloridas, apetrechos diferentes, intrigantes.
O cacique Potiassu não tinha dúvidas: era necessário observar aquele estranho ser, temê-lo, e, se preciso fosse, se oferecesse perigo, e só nesse caso, matá-lo. Recomendou aos seus comandados poupar-lhe a vida e insistia nisso: ele era uma aparição muito especial para que não fosse observado, estudado, sabidas as suas intenções, o que queria na terra dos Potiguares.
Mais além de suas fronteiras, a tribo tinha inimigos, Tapuias, Cariris. Aquele, porém, apesar de sozinho, a mercê da vontade do chefe, poderia representar perigo maior, até porque não chegou sozinho mas acompanhado de muitos estranhos, iguais a ele, e que não deixaram claras suas intenções; fizeram reconhecimento da terra; deixaram, fincado no chão da tribo, estranha pedra logo cercada e vista com espanto pela maioria dos nativos, pedra branca, desconhecida, com escultura trabalhada em seu relevo. Potiassu não gostava daquilo.
Em sua sétima noite em terras desconhecidas, Homem da Canoa Grande dormiu mais sossegado. Acendeu a fogueira em frente ao local que serviria à porta ainda não trabalhada da cabana, e cuidou de abrir fendas que pudessem fazê-lo ver o exterior, antecipando reação a algum perigo porventura a surgir.
O medo voltou a tomá-lo nessa noite, o cansaço daqueles últimos dias, contudo, fizeram-no dormir a sono ferrado durante toda a noite. Estava extenuado.
Nem a presença dos índios em derredor do acampamento ele percebeu, de tão silenciosos que foram os nativos em sua incursão de alumbramento. Em nada tocaram ou levaram, cuidando de apagar as pegadas sobre a areia fina daquele chão com galhos de árvore de folhas pequenas e redondas, a mangabeira, abundante na mata que dominavam.
Com o cuidado que se achegaram à cabana do homem da canoa grande, os índios se afastaram, sem molestá-lo, para voltar a observá-lo logo que despertasse daquele sono pesado, na manhã seguinte. As ordens de Potiassu eram de que o deixassem viver em paz, só o aprisionassem se alguma embarcação fosse vista no horizonte, e que levassem vida normal, não temesse se mostrar de longe ao visitante, até para que ele se apercebesse ser prisioneiro da tribo, mesmo em seus movimentos livres.


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Na manhã seguinte, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes terminou sua tarefa de armação da cabana. Agora, preocupar-se-ía com o feitio de uma cama para estar mais protegido contra os pequenos bichos peçonhentos vindos da areia, e de algo onde pudesse guardar melhor seus apetrechos.
Já não sentia pressa de nada. Nesse dia, tomou o rumo da praia e decidiu-se por abater alguma ave para servir-lhe de alimentação. Como eram em grande número, não foi difícil abater várias delas com um único tiro que espalhava chumbo em bom diâmetro. Espantados com o estampido, os índios correram a contar a novidade ao chefe. Haviam presenciado os tiros das canhoneiras das naus de Gaspar de Lemos, mas aquele fogo saído de entranha coisa nas mãos do homem branco, ainda não conheciam. E voltaram a temê-lo.
O chefe Potiassu passou o dia a espreitá-lo, e como ele voltou a usar a arma de fogo, agora uma mais comprida, recostada ao ombro, na tentativa de abate de um veado que se aproximara do rio para beber, ele associou aquilo ao som de que falaram seus comandados quando do desaparecimento do guerreiro que não regressara à aldeia. Potiassu ficou imensamente intrigado com a morte do animal, afinal, Homem da Canoa Grande estava a grande distância e depois da explosão, o animal rolou por terra, inerte.
Potiassu recomendou mais cuidado com o visitante. Ficassem a distâncias mais longas, e mandou que um grupo de guerreiros voltasse ao local de onde viera o primeiro barulho semelhante àquele. Como João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes não cuidara de enterrar sua trincheira, o esconderijo foi logo encontrado pelos nativos, que levaram a notícia ao chefe. O cacique dirigiu-se ao local indicado e no fundo do buraco encontrou folhas com vestígios de sangue, deixadas pelo português na trincheira. Um dos índios, sentindo fofo o chão onde o lusitano enterrara o corpo do índio abatido, noticiou suas suspeitas ao chefe que logo mandou cavar o lugar, encontrando o cadáver já em estado de decomposição.
O achado gerou grande revolta entre os índios, que queriam do chefe a permissão para matar o visitante. Potiassu, no entanto, achou que aquilo seria precipitado, já que melhor seria conhecer seus costumes, seus segredos. Tinha-o como inimigo perigoso, mas este estava à sua mercê. Conhecendo-o melhor, conheceria aos demais, e conhecer a astúcia do inimigo era fundamental na guerra, sabia o experimentado guerreiro potiguar, convencendo seus comandados.
Enquanto Homem da Canoa Grande devorava em grande satisfação partes do veado abatido, a carne fresca a revigorar-lhe as forças, a viúva índia pranteava sua perda. Era jovem a viúva índia, e ainda carregava preso ao corpo o filho de poucos meses de idade. Sem o seu guerreiro a protegê-la, a vida tonar-se-ía mais difícil dali por diante. Ela queria do chefe reparação pelo mal que o indesejado visitante lhe causara.
Potiassu, consternado, prometeu-lhe a reparação, mas não de imediato, no calor das emoções. Refletiria sobre o acontecido e prometia dar solução breve ao problema. Os últimos acontecimentos na aldeia eram inusitados e necessitavam reflexão e análise. Que lhe perdoasse a índia Jandira, mas a guerra que se avizinhava era por demais inesperada, cabendo cautela em cada decisão a ser tomada. Haviam visto as dimensões das embarcações do inimigo, o poderio de suas armas que cuspiam fogo e atingiam alvos a grande distância. Era necessário, sim, conhecer mais sobre ele.
Os índios estavam divididos. Uns queriam a morte imediata do visitante, outros pensavam como o cacique Potiassu. O pajé Potimirim antevia desgraças para toda a tribo, e colocava-se a favor da fogueira para Homem da Canoa Grande, para que seu espírito, depois da comilança, se incorporasse em todos eles. Foi difícil aquela noite na aldeia. Só a pulso firme e decisão que constrangeu a muitos, Potiassu acalmou a ira dos revoltosos. Estaria condenado à morte aquele que atentasse contra a vida do homem solitário. Vivo, ele poderia dar melhor conhecimento do que dispunham os homens brancos. Morto, os nativos jamais poderiam saber como deles se proteger. Melhor fazer daquele prisioneiro um amigo, cativá-lo para que pudesse revelar os segredos dos homens saídos do mar. Afinal, para sobreviver, Homem da Canoa Grande iria precisar da ciência indígena. E poderia ser morto quando bem lhes conviesse.


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No dia seguinte, Potiassu confabulou com diversos líderes guerreiros; escutou opiniões dos mais velhos e; procurou saber a reação das mulheres. Serenados os ânimos, viu que a tribo ainda reverenciava-o em grande respeito. Era sábia sua decisão de proteger o inimigo. Nem só pelas informações que poderiam dele obter, mas até porque poderia servir de barganha num futuro próximo, a troco de quê não sabiam. Potiassu chamou Jandira a uma conversa, e convenceu-a, a bem da segurança de todos, que aquele homem poderia ser seu marido, e que ela tinha permissão para isso. Que, sem pressa, quando a mágoa não mais fizesse parte de seu espírito, procurasse cortejá-lo, trazendo-o ao convívio dos demais.
Resignada, Jandira prometeu ao chefe que tudo faria pelo bem do seu povo, mas que jamais deixaria de ver aquele homem como inimigo pessoal. Faria o que lhe determinasse o cacique, desde que este tomasse para si o seu filho Japarandiba, Madeira de Fazer Arco, pois a partir daquele momento tinha novas funções: seria guerreira como os homens da tribo, teria que mudar seus hábitos, preparar-se para uma missão de guerra reservada pelo seu Deus Tupã, missão inusitada às mulheres índias, especial, só aceita pelo ódio que possuía seu coração.
A partir daquele dia, Japarandiba passou aos cuidados de Itapietá, Pedra que Descansa, mulher do cacique Potiassu, e todos na tribo prometeram esquecer-se de que aquele não era um filho natural do chefe, inclusive Jandira. Japarandiba, por força de um destino inusitado àqueles filhos de chão potiguar, sob a proteção de Itapietá e iluminação de Tupã, cresceria sem saber-se órfão da primeira vítima de arma de fogo da grande nação Tupi-Guarani, a partir daquele episódio, condenada ao desaparecimento vertiginoso e cruel que lhe seria imposto pelos homens vindos do mar, de terras distantes, para tingir de vermelho o chão onde o pau-brasil crescia na mata, sem despertar o interesse que a ele dava o homem branco, saído da canoa grande.
Jandira, a verdadeira mãe de Japarandiba, agora seria mulher guerreira e atrairia o assassino do pai de sua cria a conviver entre os Comedores de Camarão, índios pacíficos, brincalhões, amantes da dança, de brincadeiras e da terra que nada fazia faltar à felicidade de todo aquele povo temente à natureza. Um povo bom, amante do seu chão, feliz, e sempre pronto à reação quando fustigados pelos Cariris e Tapuias, seus inimigos territoriais. Contra aquele novo invasor, eles já percebiam, seria bem diferente. Eram em menor número, mas dispunham segredos que metiam medo, cuspiam fogo de suas naus gigantescas, e de suas mãos também saía fogo que matava à distância, com estrondo.


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Para prevenir baixas entre os seus, Potiassu resolveu tolher as ações do inimigo em terras potiguares. Chamou um grupo de guerreiros e ordenou que a cabana do homem da canoa grande fosse invadida enquanto dormia. Queria ver-se livre de todos os apetrechos de que dispunha. Não estava disposto a ver aquela arma para seu povo desconhecida em uso contra nenhum dos seus.
Noite alta, os guerreiros potiguares acercaram-se da cabana de João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes que dormia, e fizeram-no prisioneiro. Ataram mãos e pés, passaram uma vara comprida e grossa entre seus membros e levaram o português ao centro da taba, onde uma grande fogueira iluminava a noite.
Ao ver chegar o homem branco, a vontade de Jandira foi de partir para cima com seu tacape e dar fim à vida do homem que tirou seu marido da companhia dos vivos. Potimirim, o pajé que via maus presságios naquela visita, tomou a palavra e instigou os companheiros a matá-lo naquela mesma hora, gerando tumulto na tribo de Potiassu.
O chefe da tribo antecipou-se às reações adversas e, acenando ao grupo de guerreiros que havia feito a captura do português, depositou próximo ao seu corpo estendido na areia todos os seus pertences.
- Homem da Canoa Grande será nosso prisioneiro por duas luas. Depois desse período, quando será cortejado por Jandira, que cuidará de alimentá-lo, será solto e, se quiser, poderá viver entre nós. Seus pertences serão enterrados em lugar secreto, e, sem eles, será igual a qualquer um de nós e em desvantagem, porque não saberá se defender como sabemos, porque não disporá das armas que dispomos.
O pajé Potimirim voltou a fustigar a tribo pedindo sua execução, mas Potiassu, mais uma vez o interpelou.
- Respeito sua ciência e seu zelo para com nossa segurança, Potimirim. Disse Potiassu para toda a tribo. Mas estamos vivendo momentos especiais e precisamos saber do homem da canoa grande o que aquela gente pretende em nossas terras. Se vierem em paz, serão bem recebidos. Se vierem para trazer morte aos nossos, serão recebidos com a fúria do nosso povo.
Diante da valentia mais uma vez ali demonstrada, Potiassu impôs sua liderança e os ânimos dos descontentes arrefeceram-se.
Potiassu chamou Jandira mais uma vez a uma conversa reservada, quando lhe deu por responsabilidade os cuidados do estrangeiro, recomendando o zelo pela sua vida, já que poderia ser de muita utilidade em caso de guerra contra o povo que se apresentara na enseada. No dia seguinte, seus guerreiros construiriam uma gaiola de estacas fortes e nela manteriam por duas luas prisioneiro o homem da canoa grande.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes não conseguiu dormir naquela noite. As dores nos punhos e tornozelos o incomodavam, maior, no entanto, era o medo de se saber refém daquele povo desconhecido, comedor de carne humana. Imaginava-se devorado e aquilo causava-lhe pânico. Quando, com a retirada dos índios para suas locas, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes percebeu que não seria morto pelo menos naquela noite, ficou mais aliviado, mas o pânico permanecia.
Dois guerreiros fizeram a guarda do prisioneiro, ali, estendido, nas dunas da terra poti, até que o sol aparecesse no horizonte.
Como se nada especial estivesse acontecendo, todos tomaram suas funções normais até que Jandira apareceu, servindo água fresca ao assassino do pai de Japarandiba.


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João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes bebeu a água trazida por Jandira com sofreguidão. A sua volta, cinco potiguares armavam a gaiola onde ele ficaria em cativeiro pelos próximos dias. De longe, Potiassu observava o trabalho com os olhos também no horizonte de mar, pois temia a volta das canoas grandes.
Antes que o homem branco fosse fechado na gaiola sem portas concluída naquele mesmo dia, Jandira arrancou suas vestes pesadas, deixando-o completamente nu. Fora recomendação de Potiassu, que recomendara também, por precaução, mantê-lo de pés e mãos atados.
Antes do entardecer, reunida no centro da tapa, a tribo traçou estratégias de proteção e vigia do litoral. A cada ponta da orla, dali a muita distância, grupos de quatro guerreiros estariam atentos, prontos a avisar aos demais caso surgisse algum sinal de embarcações desconhecidas.
Os dias passaram-se sem anormalidades. Jandira cuidava do prisioneiro e estabelecia com ele uma convivência que seria pelo resto dos seus dias. Alimentava-o, dava de beber, jogava água fresca em seu corpo e até revestiu de galhos e folhas a parte superior da gaiola, para protegê-lo do forte calor. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, apesar do desconforto, não mais sentia o pânico dos primeiros dias em que fora aprisionado.
Jandira procurava mostrar amizade e até ensinava palavras ao homem da canoa grande. Por recomendação do próprio Potiassu, os pés e mãos do prisioneiro foram dessamarrados, aliviando-o das feridas decorrentes e já infectadas. Com ervas, Jandira cuidou das feridas de João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes e até já nutria por ele certa simpatia. Sentia falta do filho Japarandiba, mas sabia-o bem cuidado por Itapietá, o que lhe aliviava a saudade.
Antes mesmo do fim do prazo estabelecido pelo chefe, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes ganhou liberdade vigiada. Seus passos, contudo, limitavam-se à taba e sempre acompanhados pela mulher e guerreiros devidamente orientados por Potiassu. Antes do anoitecer, era induzido a voltar à gaiola que ganhara porta e ali permanecia por toda a noite.
Aos poucos, e com a ajuda da silvícola, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes foi vencendo limites da taba e até assumindo funções de trabalho, como a pesca, sempre em companhia do grupo guerreiro indicado por Potiassu. Palavras do idioma nativo foram aos poucos incorporadas ao seu vocabulário, e este aprendizado ajudava-o a fazer amizades, especialmente com as crianças, que tinham nele imensa curiosidade.
Chegado o verão, Homem da Canoa Grande já dispunha de liberdade para caminhar sozinho pelas praias e dunas em volta do marco chantado, sem jamais vencer limites estabelecidos pelo chefe da tribo. Sempre que arriscava passos maiores, distanciando-se, os guerreiros do chefe Potiassu o instigavam a voltar às proximidades da taba, onde Jandira sempre o recebia com a distinção recomendada.
Os meses se passaram e João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes já se assemelhava aos nativos, que o iniciaram em técnicas de pesca, a princípio, e, depois, de caça, com zarabatanas e, mais tarde um pouco, arco e flecha. Fugir, ele não tinha para onde. Usar aquelas armas de caça contra os nativos, não seria prudente, pois facilmente seria abatido pelos demais.
Da convivência diária, um novo relacionamento ia surgindo entre Jandira e o homem da canoa grande, agora mais a vontade nas terras desconhecidas.


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Em aparente liberdade, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes sabia estar à mercê dos Potiguares. A gaiola preparada para si, porém, permanecia ali, como se a esperar qualquer deslize seu. Melhor seria aceitar a corte da jovem índia e com ela casar, como lhe era sugerido em gestos de boa vontade, e viver em harmonia com os nativos.
Por vezes, o lusitano voltava à barraca armada quando de seus primeiros dias em terras do novo mundo e ali passava dias, sem voltar à taba de Potiassu. Só Jandira o visitava, e não deixava um só dia sem que isso fizesse. Saíam para caçar, pescar, conhecer praias distantes.
Numa dessas caminhadas pela orla, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes deparou-se com uma foz de larga embocadura, talvez de um grande rio, chamado pelos nativos de Potengi. Em sua margem esquerda, resolveu, com a ajuda da companheira de todos os dias, armar uma nova cabana, onde passaram a viver como marido e mulher.
Logo Jandira estava grávida e a notícia chegou a Potiassu, que preparou festa para comemorar. Remoendo ódio profundo, inconformado com a benevolência do chefe, e mais agora com a notícia do casamento de uma mulher de sua tribo com o invasor, o pajé Potimirim urdia planos para matá-lo.
Tempos tenebrosos para o seu povo era só o que antevia Potimirim, a cada dia mais inconformado com a presença de João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes. Matá-lo-ia, sim, na primeira oportunidade, e o mesmo faria com Jandira. Não deixaria nascer o rebento que já estufava a barriga da jovem guerreira.
Quando a lua cheia subia no horizonte de mar do dia que celebraria o casamento de Jandira com Homem da Canoa Grande, chega à tribo a notícia de que grandes embarcações descem do norte com destino sul. Preparativos desfeitos, novas providências são tomadas para aquela noite.
A primeira delas, a volta de Homem da Canoa Grande à gaiola no centro da taba.
Por trás das dunas de todo litoral circunvizinho, grupos de guerreiros espreitam os mares. Próximo ao amanhecer, a notícia se confirma: quatro embarcações cruzam os mares potiguares e se perdem de vista sob a cerração chegada com forte temporal.
Chove durante toda a manhã, impedindo a visão do horizonte.
Os índios impacientam-se e, a custo, Potiassu contém Potimirim que exige a morte do homem da canoa grande, ali, segundo ele, a esperar o resgate que viria, trazendo a morte para seu povo.
Quando cessa a cerração, sol a pino brilhando forte mais uma vez em terras e mares potiguares, nenhum sinal das embarcações é visto. A notícia de que seguiram em direção norte chega de guerreiros acampados do lado direito do Rio Grande, mas nem assim o clima de inquietação arrefece.
Aproveitando-se do alvoroço e da excitação de todos, Potimirim, num gesto de insubordinação, toma seu arco e dispara uma flecha contra João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, não o atingindo mortalmente porque resvala na estrutura de madeira da gaiola, alojando-se em sua coxa.
Jandira corre ao chefe para levar a notícia, quando uma outra flecha é disparada por Potimirim, agora em sua direção. A mulher grávida rola por chão, enquanto guerreiros fiéis a Potiassu contêm Potimirim, já preparado para nova investida.


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Enquanto um grupo de guerreiros retira ferido João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes da gaiola em que se encontrava, Itapietá socorre Jandira. Potiassu caminha em direção ao grupo que mantém Potimirim sob domínio e desfecha-lhe mortal golpe com o tacape que tem a mão.
Os feridos são levados à oca do chefe da tribo potiguar para receberem tratamento, enquanto o corpo de Potimirim, a mando de Potiassu, é levado para dunas distantes e deixado a céu aberto para ser devorado por animais e urubus.
- Vivemos momentos diferentes. Não conhecemos quem são nem o que querem os homens das canoas grandes. Precisamos estar unidos para enfrentar o que está por vir. Daqui por diante, qualquer insubordinação, por menor que seja, será cobrada com a vida de quem a cometer, disse Potiassu a seus guerreiros, depois de reuni-los e recomendar providências de vigilância redobrada em torno de todo litoral circunvizinho.
Enquanto o ferimento de Homem da Canoa Grande não apresentava gravidade, Jandira ardia em febre. Durante cinco dias, a guerreira potiguar delirou desacordada, tendo ao lado Itapietá e outras mulheres, que temiam pela perda da guerreira ou do filho que trazia na barriga.
Quando a febre da guerreira grávida finalmente abrandou, Itapietá descansou aliviada. Era grande a preocupação das mulheres índias com a saúde da índia que trazia consigo o filho de Igarassujara, aquele que seria especial, muito especial, diferente de todos e por isso a ser mantido vivo a todo custo.
Quando a guerreira, no sexto dia acordou do desfalecimento, Igarassujara, o Homem da Canoa Grande, foi chamado a sua presença. Potiassu queria mostrar a ambos que daquela investida de Potimirim eles haviam escapado, mas que outras poderiam acontecer, já que ainda havia oposição entre os seus, e um ou outro guerreiro poderia atentar contra suas vidas.
Após a visita, Potiassu recomendou que levassem Igarassujara à cabana que havia construído na margem esquerda do Potengi e que o deixassem viver nas cercanias do rio, sem poder aproximar-se da taba. Queria preservar Jandira durante a gravidez. Eles só poderiam voltar a se encontrar depois do nascimento do curumim.
Os dias seguintes foram difíceis para Jandira. Se viveria, era a indagação de todos. Estava magra e a febre e os delírios voltavam inesperadamente. Juraci, irmão de Itapietá, destacou-se em seus cuidados, recomendando ervas para o tratamento. Seria o novo pajé da tribo comandada por Potiassu.
Em sua solidão vigiada e protegida, Igarassujara explorava terras cada vez mais distantes. Como os potiguares, vivia da caça de pequenos animais e da pesca de camarões, siris, caranguejos e peixes, abundantes nos mangues a margear rio a dentro, até os igapós, onde uma comunidade mantinha pequena aldeia.
Em suas igaras, comandados de Potiassu cruzavam o rio levando material à outra margem do Potengi, onde preparavam acampamento com uma única morada. Fora ali o lugar determinado pelo chefe para a construção do lar que serviria a Jandira, se sobrevivesse, e sua nova família, um rio largo a separá-los, mas, ao mesmo tempo, próximos, ao alcance de seus guerreiros.
Recomposta depois de duas luas entre a vida e a morte, a grávida vítima da ira de Potimirim recebeu recomendações de não se afastar da tapa. Retomaria atividades amenas e só depois do nascimento de Igarassujararaí, o filho do homem da canoa grande, poderia voltar a encontrar-se com o estranho homem chegado do mar.


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A vida voltou ao normal na aldeia Potiguar.
Ansiosos, os comandados de Potiassu esperavam o nascimento do filho do homem da canoa grande. Por todos, Jandira era bem tratada, agora livre do ódio de Potimirim, o pajé que atentara contra a sua e a vida de Igarassujara, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes, o marinheiro português que deserdara da esquadra de Gaspar de Lemos, aquela que chantara, em terras potiguares, o primeiro marco de posse das terras que anos depois viriam a ser chamadas Brasil.
Vendo aproximar-se o dia do nascimento esperado, Potiassu determinou que Igarassujara fosse levado ao acampamento preparado do outro lado do rio grande, por eles chamados de Potengi, a muita distância de sua aldeia.
Queria Potiassu que a família que iria surgir da convivência de Jandira e Igarassujara vivesse isolada e em observação permanente, o chefe indígena cada vez mais preocupado pelas incursões do desconhecido mata a dentro.
João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes tinha sede de explorar as terras desconhecidas. Tudo o que queria era encontrar ouro ou pedras preciosas, daí suas caminhadas a cada dia mais distantes.
A lua cheia iluminava a mata na noite em que Itapietá chamou Potiassu e deu notícia do nascimento de Igarassujararaí, um menino saudável, pouco diferente dos seus, guardando todos os traços da mãe, exceto a cor dos olhos, claros, mas ainda indefinidos, bem diferentes dos olhos dos recém nascidos daquela aldeia.
Na lua seguinte, Jandira foi levada ao encontro de Igarassujara e com ele deixada para a convivência planejada por Potiassu.
Igarassujararaí cresceu ajudando ao pai no conhecimento de sua língua. Jandira ensinava a ciência potiguar a pai e filho, esquecida do episódio causador daquela união. Paralelamente, João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes também ensinava idioma e ciências ao pequeno Igarassujararaí.
Com o tempo, o português percebeu que aquelas terras não tinham ouro nem pedras preciosas, pelo menos nas circunvizinhanças onde vivia.
A mata, dunas a dentro, o atemorizava. Sabia já da existência de índios inimigos dos potiguares ali por perto e que não seria prudente ir além das fronteiras demarcadas pelos seus protetores. Sonhava agora com a chegada de nova esquadra portuguesa para fugir dali, deixando para trás a família que já contava com dois outros filhos homens, Aiurucaua – Casa de Marimbondos, e Arati – O Despertar do Dia e; uma mulher, a bela Iaciara, Espelho de Lua.
A vida na aldeia corria sem anormalidades e mesmo insatisfeito com a prisão àquela terra e àquela vida selvagem, Igarassujara a cada dia mais estava convicto de que aquela seria sua rotina pelo resto da vida. Perspectiva só quebrada quando naus raramente cruzavam o horizonte, o que deixava a indiada em polvorosa e ele recolocado de volta a sua gaiola, até que o perigo se afastasse.
Os anos passavam, as crianças de Jandira cresciam, vivendo mais na aldeia de Potiassu que com seus pais, e a visão de naves gigantes cruzando o oceano passaram a ficar mais freqüentes.
Numa ensolarada tarde de verão, enquanto três embarcações permaneciam ao largo, duas outras adentraram o rio Grande, deixando Jandira em grande preocupação, já que Igarassujara saíra para a caça na direção para onde navegavam as canoas grandes.
Logo, ele apareceu em praia da outra margem , acenando para as embarcações.
Eram naves de bandeira francesa. João Antônio Cícero Sebastião José Silva Fernandes via ali a oportunidade que há anos esperava: voltar para a Europa, mesmo que sem as riquezas sonhadas, mas com uma história para contar, o que decerto o faria um homem famoso.